Respirar teu sopro antinatural que agora me faz bem, mal, por querer uma natureza de pensar e ser além dos meios, mas a síntese do meu sentir é medo, ou pudor - dos quais abro mão, mais do segundo que do primeiro: mira que as pernas tremem, a paz no corpo que se sacia, mas nunca se basta, há ainda a tentativa do reorgasmo após o gozo, do grito calado rasgado, do torpor do segundo que antecede o segundo esporro, quando os cabelos caem, os braços doem, os fantasmas saem, e ainda que amaciando a carne e o peito, reverbera a última emoção como no começo, mas logo é fim: que se olho em teus olhos há nuvens negras, há mares fundos, há beijos secos, refletidos pelo que há desse seu sincero úmido, o que esperava me dizer ser, mas a superfície de mim é infinita chada, que se estende ao longe, extensa e rasa não muito desliza, preocupada em não tocar a linha onde o céu encontra, é horizonte - esse limite intransponível do lugar donde se ouvem verdades, quase sempre ofensas; não que eu quisesse mentiras, antes de ti eu queria o silêncio, que para mim é fácil, mas é que há algum tempo eu não me suporto, e hoje por isso, eu queria o grito: mas como sempre covarde, respiro e calo.
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Vontade & vício.
Se até nem as coisas podem existir somente em si,
Não vou ignorar que minha vontade é o vício de ti.
O amor não nasce nem se encerra em mim!
Tudo que é leve e graça o tempo leva sim...
Mas teu peso fica como um mar de sentido amplo,
Atmosfera em que cego me lanço,
Morrendo de medo e de vontade:
Você, meu vício.
Não vou ignorar que minha vontade é o vício de ti.
O amor não nasce nem se encerra em mim!
Tudo que é leve e graça o tempo leva sim...
Mas teu peso fica como um mar de sentido amplo,
Atmosfera em que cego me lanço,
Morrendo de medo e de vontade:
Você, meu vício.
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Eu, como sempre.
Quando movimento assim os dedos na ânsia de me satisfazer - porque aparentemente é só isso o que eu quero - em palavras nessa superfície tão desde sempre conhecida e devassada por cores vivas, o sopro pára e espera só a ação que não é dele, de colocar em superlativo ar no pulmão, que se abre mas não inteiro - que a mediocridade atinge também aos orgãos internos - e quando respiro inspiro expiro vejo tudo ficar claro, numa tontura que faz girar o olhar aos quatro horizontes. Percebo então que tudo o que eu escrevi é nada além de explicitamente eu, mas disfarçado, nada de sincera verdade, é atitude visceral do que eu queria ser mas só sou por dentro do que em mim fala mais alto: essa minha mente que na maior parte do tempo só pensa e só sabe falar de si, por ser tão vazia de outras dimensões - do real, do mundo, dos outros, do nada. O impulso ainda vem, então continuo: sabendo que as palavras são tão frias e em todos os aspectos iguais ao meu próprio rosto, são imagem, é o que se mostra e esconde tanto. E que do mesmo modo que quando ando, minto minha natureza simples, parecendo coisa vivida, porque o complexo é tão mais instigante. Recrio a mim mesma de jeitos que atraiam mais olhares atentos, e funciona, mas o que eu queria ver agora era a morte de todos os personagens, sem exceção. Porque o sentimento de angústia não pára, por não conseguir dizer a verdade, por mais que eu admita a invenção. Tudo sempre foi sincero, o que não me deixa ser é esse eu que grita o tempo todo no meu peito e que permito falar mais alto, porque sempre foi assim - isto também pode ser uma pergunta - e nunca me vi no espelho, nem nunca voz nenhuma veio me abrir os olhos e fazer ver o que tão claramente repudio agora: que além da vaidade, a realidade d'eu em mim mesma é insuportável.
sábado, 20 de novembro de 2010
Se forma efêmera não há fato.
Fecha a boca, não diz mais nada, que tua palavra vai negar a minha forma. Se estanco no grito teu pulsar veneno a me olhar nos olhos querendo ver mais fundo e transformar-me em nada mais palpável que a coisa por ti inteligível, te calo sim neste instante, que eu não quero ser encaixada nos livros da tua estante, sim ser firme incógnita, sem ser imposta, ser maldeus. Se o meu cigarro tá na mão que me mata o gosto, o verbo, o ato e a forma, levo à boca com a consciência calada do que certamente será a minha natureza em breve porque só à mudança dicotómica da vida me permito. O contido nas gotas suspensas do teu éter que não é líquido, que não é sólido, embora queira e tente não desmancha minha forma concreta, dele foge fugaz. O muro não cai, nem cresce, a vida não flui, e esquece, tudo passa entre nós e vai, nunca haverá lembrança desse tempo das aves que vem confortar o peito trazendo a imagem sonora daquilo que não se vê quando preso em revolução dos pensamentos: a luz do dia clarear este lugar que é tão belo e é perigo a dor de se ver sem os dias de pó desse barro daqui - e nos vemos. Por isso dói, que eu me veja a querer me portar como coisa sólida que vê e vive e saber que se espalham por sua natureza atroz a ambição e a indelicadeza de prever a minha forma e querer que eu seja nuvem a qualquer custo.
Palavras-chave:
autoconhecimento,
reflexões,
transformações
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Análise humana.
Como eu posso melhorar esse vazio? Quadras curtas não vão ajudar esses quarteirões internos, sempre vazios à noite, desertos. Não querem entrar, pedi imposto caro demais: se dar sempre é risco, que ninguém quer ter que correr. Risco maior de se envolver e se perder, então não saber voltar. Então não querer voltar. Se perde em mim, me acha. É um labirinto o que fiz aqui? Um caminho que ofusca os olhos com a luz do túnel, mas que não leva nunca ao fim. E se sua deriva me explora por todos os pontos, sinto que permeia entre mais que arranha-céus, que em vista panoramicamente elevada me vê a malha que confunde, que reprime, que exprime o que eu sou por dentro: organicamente anti-natural, naturalmente não-humana, perfeitamente anti-social - de grandes percursos, caminhos marcados e pontos de convergência únicos.
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
agradeci ment ira
Talvez merecesse também, por tudo o que hoje sou:
corpo destruído,
alma despedaçada,
moral inexistente.
Que o que restava em mim de segredo tu me fizeste gritar bem alto, enquanto tuas mãos devassavam
minhas vestes,
meus limites,
minha calma.
E se um dia só resolvi partir - pra longe ainda lembrar, que esquecer não posso - eu o faço:
com tua sombra no meu passo,
teu peso no meu ombro,
no meu rosto o teu cansaço
- da tristeza da perda que é também minha, porque
a voz eu calo,
o grito eu sopro,
o amor engasgo.
Que agora o que me guia não é mais nada que importe
a palavra falada,
a música composta,
o silêncio entre as notas.
Porque a dor chegou depois, à noite, e não foi nunca embora.
corpo destruído,
alma despedaçada,
moral inexistente.
Que o que restava em mim de segredo tu me fizeste gritar bem alto, enquanto tuas mãos devassavam
minhas vestes,
meus limites,
minha calma.
E se um dia só resolvi partir - pra longe ainda lembrar, que esquecer não posso - eu o faço:
com tua sombra no meu passo,
teu peso no meu ombro,
no meu rosto o teu cansaço
- da tristeza da perda que é também minha, porque
a voz eu calo,
o grito eu sopro,
o amor engasgo.
Que agora o que me guia não é mais nada que importe
a palavra falada,
a música composta,
o silêncio entre as notas.
Porque a dor chegou depois, à noite, e não foi nunca embora.
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Falar em formas.
Quero dizer as palavras certas, mais do que isso: eu preciso, se é que posso, dizê-las assim e sentí-las saindo da boca com propriedade suficiente a saber o quanto se assemelham a uma ou outra forma circunscrita em infinitas outras, ou entrelaçadas, lineares ou não, duas dimensões ou mais, mas menos do que aquilo que a minha mente pequena não consegue conceber, que são ou não uma e outra e que trazem conforto por serem macias de ouvir ou porque o saber é preciso - e é uma ilusão, ou é que somos pequenos demais pra ficarmos no silêncio, sozinhos com o que há em nós e incomoda tanto, e é vulgar. É esse o ponto na fenda do espaço-tempo que eu não diria ser partida, mas de parada, quando é preciso parar, porque uma hora é preciso, mas essa necessidade, eu digo que surgiu bem antes.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Último degrau, última gota.
À noite nada mais importará, que terei de contar à todos que o teu sangue pingou e escorreu na escada, vazou até a última gota, saiu da artéria e da mão que cortou o pulso - que como tentativa desesperada tentou também contra si mesma, apertando com as últimas forças de coragem a lâmina, sabendo que assim talvez a vida te deixasse logo, que a tua alma já era tão antes ferida. Mas o corpo foi que pingou, num ritmo constante lento. Devagar suficiente pra que tu visses a vida se esvaindo, o sopro deixando o corpo e sentisse até certo arrependimento, mas uma sensação de alívio pela coisa planejada e então cumprida, pelo menos uma vez na vida, quem sabe aprende e pratica talvez também outra vez na morte. Teu sangue pingou poças nos degraus de cima, que vermelhamente bonitas densas tornavam-se muito grandes para os vinte e oito centímetros de piso e tinham ânsia de descer, esperando pela próxima gota que mesmo depois de expulsa e morta continuava promovendo movimento, um movimento puramente físico explicado pela energia não mais vital e sim cinética & mecânica, sem energia nenhuma da coisa que é bela, da coisa é que viva. Vem o pingo que num segundo faz na superfície vermelha e densa suas ondas e leva toda a poça a descer por um fio até o degrau de baixo e depois o próximo e o outro, o declínio do próprio ser depois da vida, que desceu lavando toda a tua casa abaixo, junto com a teu sangue morto, e tua vida pouca que ainda precisa pulsar um tanto mais pra expulsar o que nela ainda há de si e que se diz insuportável, insustentável mais, pras pernas cansadas que desejavam repouso, pra face forçada e rosada que esperava ser pálida e pro coração, que há muito parou de bater direito. As últimas gotas, não fazem diferença mais, a vida morta já chegou no último degrau, desceu depressa de você no alto do lugar, pária vida, desprezada, agora deixa a vida de si, serás nada, serás passado só, serás morta, enfim os dias nunca mais chegando de manhã com o Sol e inconvenientes vindo bater à tua porta.
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