Queria ter o verbo livre como o pensamento. Que sem ter medo de julgamentos próprios se faz senhor da sua razão. Que tem seus próprios sentidos ocultos e que não se censura ao sentir-se (in)certo. Meu verbo é subjetivo, subjacente, subjugado, subentendido. Há o aperto, que as idéias presas fazem pressão contra a minha carne, querem sair, eu quero que saiam, mas. O sangue lateja na cabeça, sobe de uma vez, quente. A minha voz não vomita, engasga com as palavras e elas fogem pra longe, o mais dentro possível, logo quando poderiam ir. A cabeça gira, pesada e quase cai de tontura, da não-lucidez. Queria falar dessas coisas ao menos uma vez e sentir que liberdade vem do que eu posso me fazer ser. Disso eu sei, sei pouco do resto, dos jeitos, dos métodos. Sei do que quero: me fazer ouvir, me livrar dos dias de antes, das coisas feridas do passado que ainda dói, e tantas outras que já não me fazem parte do que eu presumo que seja eu. Falar de tudo que há de mais essencial, me mostrar nú, não ter mais medo. O meu corpo, parece não ser instrumento certo, que não obedece ao pensamento mais: ele quer ser todo verbo! Mas ele não se faz, é incapaz; de admitir querer pensar, e então ser.
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domingo, 12 de setembro de 2010
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
não-linguagem.
Não me pressione pra dizer o que eu não sei expressar assim, e ser obrigada a ser razão e aceitar: que o tempo passa, e que a dor existe - se não sei, sinto. Não quero admitir, se eu disser vai acabar sendo, então não digo. Mas tente você ler nas entrelinhas, entender das coisas, das artes, minha liberdade, e me ver como outro alguém. Não sei, meu bem, não sei ser. Meu pensamento sem forma nem cor nem palavras nem cheiros nem gostos tenta ser algo que eu possa mostrar pra você, falta a linguagem. A discussão em si é método falho, se escrevo tudo se faz claro. Minha mente que não fala, assim permanece: vazia e calma. Enquanto a tua paciência espera de mim coisas palpáveis, minh'alma voa, mundos distantes, e é insana e livre, indecifrável. Foge dessa realidade tua, minha. Fura atmosferas pesadas, como teu olhar assim sobre meu olhar, sobre as coisas de dentro de mim. Sobre dentro de mim o teu corpo. E depois do fato feito estático e imutável a palavra que é solta, prende. Não entende, leia mais que os lábios quando falo, leia meus lábios quando te tocam e isso também eu não entendo.
Palavras-chave:
confusão,
liberdade,
sentimentos,
tempo
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Infância.
Fica horas inteiras sem entediar-se olhando plantas bem cuidadas, cenários de suas histórias. Vê tartarugas desnutridas, formigas mortas e caracóis perdidos e chora, porque tudo parece tão triste, o sofrimento daquela criatura esfomeada é dela, que esquecera de alimentar o animal. As flores amarelas caídas na calçada dão um ar de graça, aqui o tempo passa muito devagar. Os gatos esparramados e preguiçosos, ela ri, ama aquelas criaturas. O Sol das dez da manhã queima de leve o corpo desajeitado e quase nú, e cega os olhos que ela aperta bem até chegar à buganville crescida entre o muro e a garagem, onde pode enxergar tudo muito bem, à sombra devassada por apenas uns raios luminosos, que com os braços estendidos pintam a pele de bolinhas. Quando olha assim pra cima, o teto de flores cor-de-rosa é coisa mais linda que já viu, sente coisas que não conseguiria explicar nem depois de muitos anos, quando isto seria apenas mais uma lembrança confusa, não sabendo se realidade, sonho, imaginação. Fato é que agora, ela sente que está mais próxima do azul muito alto do céu, os feixes de luz que chegam até seu corpo por entre pétalas e folhas a deixam leve, como se dormisse, mas está acordada e muito sã. Então levanta devagar os braços, não sabe por que, mas sente o ar que envolve o seu corpo, parece muito pesado, acha engraçado, mas não ri. Sente que pode tirar do chão também as pernas, uma depois a outra. Não entende se seus movimentos é que estão lentos, se o tempo está passando mais devagar ou o peso da matéria ou qualquer outra grandeza das leis da física que mudou ao seu redor, mas sabe que muito lentamente agora, sues pés não tocam o chão e os braços esticados equilibram o pequeno corpo, que flutua. Os raios de Sol envolvem todo o seu entorno e parecem poder penetrar a pele, porque se sente quente por dentro, adrenalina contida de criança, sorri, calma, sente o éter. Paira um pouco sobre o ar, sente-se leve sob este mar de atmosferas sobrepostas onde tudo é devagar. E parece que tudo é sonho, talvez por isto as dúvidas posteriores. A mistura do pensar e do agir, a imaginação e a realidade indissociáveis mais. A loucura, a leveza: presentes para sempre, até os dias de agora.
Palavras-chave:
confusão,
inocência,
sentimentos
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Não sobreviva.
Um corpo humano demais, um gosto amargo de tão azul por dentro. Feio, porque não acredita na beleza. Chore de uma vez e me mostre o que esconderam em você. Não seja medíocre. Não seja medíocre. Não seja medíocre. Não. Tenho que me lembrar disso todos os dias. E viver um velho amor, um grande amor ou um novo. Não estou te pedindo nada, mas me deixe só, quero ficar só, chorar só, morrer talvez. Depois de um dia inteiro sem luz, sem música, sem rir. Os dias seguintes não, chega de dias mortos. Vive hoje então. Mas o seu corpo ainda assim não tomou forma. Conhece os outros, pelamordedeus. Beija tua menina e vai. Ninguém vai te dizer como agir, o que sentir. Seja forte, vai doer. Tudo o que eu queria era sentir de novo dor. É de amor que choro agora, é da dor que rio. Dói muito viver. Existe vida, meu menino.
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